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O PENSADOR


CONHECIDO POR SEU TALENTO MULTIFACETÁRIO, COM INCURSÕES DIVERSAS NO TEATRO, NA LITERATURA, NA MÚSICA, NA INTERNET ETC., MICHEL MELAMED, O DOM CASMURRO DA MINISSÉRIE CAPITU, NÃO BUSCA O SUCESSO A QUALQUER PREÇO     

 

POR ANDRÉ MALERONKA   RETRATO BRUNO GABRIELI

O desdobramento de Michel Melamed em inúmeras funções criativas talvez possa ser explicado pelo expresso duplo que ele pede no início da entrevista que concedeu à ELEELA antes do fim de semana de encerramento da temporada paulistana de sua peça HomeMúsica. “Tomo baldes de café, não consigo parar. [A bebida] É um petróleo que é compartilhado irmamente e não está em escassez”, diz, empolgadão. Aceitar essa aparente causalidade seria se ater à superfície, o que, pelo ritmo com que se expressa, não é a dele. Melamed diz o que pensa, emendando uma ideia na outra num discurso de muitas referências, e se movimenta em tantas esferas culturais diferentes – já apresentou programas de TV, escreveu, dirigiu e atuou em três monólogos, fez muitas performances, levou choques e queimou dinheiro no palco, lançou um livro, compôs música, foi colunista de jornal e atuou no cinema – que fica complicado catalogá-lo.
O carioca de 33 anos veio da palavra escrita e declamada com o ímpeto bravateiro da juventude alimentado pela companhia feminina em um bar, como conta na entrevista a seguir. Impulsivo, do estabelecimento etílico foi levado a um evento na Faculdade da Cidade do Rio, chamado Terças Poéticas, que juntava de autores consagrados, como João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar e Antônio Houaiss, a novatos como ele. Logo depois, ao lado dos poetas Chacal e Guilherme Zarvos, dirigiu o projeto CEP 20.000 (Centro de Experimentação Poética do Rio de Janeiro). Em 2002, atuou, ao lado de Matheus Nachtergaele e Marcélia Cartaxo, no espetáculo Woyzeck, o Brasileiro, recriação polêmica de Cibele Forjaz e Fernando Bonassi da obra clássica do alemão Georg Büchner. Na sequência, deu início à sua Trilogia Brasileira, com as peças Regurgitofagia, Dinheiro Grátis e HomeMúsica, todas escritas e protagonizadas somente por ele, e baseadas em farta troca com a audiência.
Foi através do programa Recorte Cultural, uma revista eletrônica de cultura, que ele apresentava na TVE, que o diretor global Luiz Fernando Carvalho conheceu seu trabalho e o convidou para protagonizar a minissérie Capitu, adaptação do clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis, exibida pela Globo no fim do ano passado. Depois de recuperar quase todos os 21 quilos que perdeu em três meses para protagonizar Bento Santiago, o Bentinho na fase adulta, Melamed continua sua multiplicidade de funções, afirmando que essa é uma característica do fazer artístico atual. “Tenho tesão nas coisas que faço, porque não há opção, porque é vital, porque é louco, porque tem que ser assim. As peças foram assim, Capitu foi assim, de segunda a segunda, na minha tentativa de dar tudo naquilo. E é um tesão que seja assim”, declara ele.

ELEELA Você escreve, atua, dirige, faz música. As pessoas geralmente seguem para um lado só.
MICHEL MELAMED
Eu não tenho essa sensação, não. Acho o contrário, que um tempo atrás, sim, você poderia falar do homem renascentista, mas [essa multiplicidade de funções] é uma coisa que me parece bem contemporânea. Nas possibilidades de se manifestar no mundo isso é legal, vale. E a profecia de cinco anos atrás, da tecnologia, rolou! Quem quer fazer um CD, faz no seu computador; quem quer fazer um livro, printa, xeroca e encapa. Então, você pode responder aos seus desejos com mais avidez. No meu caso é isso, tenho desejo por fazer todas essas coisas.

 


Durante a entrevista, café e cigarros na foto da esquerda. Direita, negociando com a plateia em Dinheiro Grátis

 

EE Mas você tem um definição para o que faz, além de artista?
MM
A priori, o Ezra Pound [poeta e crítico norte-americano] fazia essa definição entre três tipos de artistas: os revolucionários, que inventam linguagens, se aventuram, experimentam; os virtuoses, que pegam essas linguagens e levam ao limite; e os diluidores. Sempre me interessei mais pelos revolucionários, isto é, pela experimentação em linguagens. De fato, o virtuosismo não é uma coisa que passa pela minha cabeça quando faço essas atividades todas. Existe um desejo, uma matriz que acho que é a poesia. A maioria desse trabalho surge solitariamente escrevendo. Mas falei tudo isso pra não recusar o fato de que faço várias atividades e elas têm várias especificidades técnicas. Também não sou um bandoleiro, sem preocupação técnica nenhuma. Vou pelo meu desejo, pelo desejo da experiência e pelo pensamento artístico maior.

EE Não deixa de ser uma posição diferente do que a maioria dos artistas nacionais se coloca.
MM
É que fica mais complexo, mas entendo que a arte tem como um de seus papéis fundamentais a possibilidade de revelar, de desvelar novos aspectos do mundo para as pessoas, de reinterpretar este mundo e tirá-las da formalização a que costumam estar presas. E uma das formas de se fazer isso é pela integração de linguagens. Aí acho que é justo que eu me coloque nessa posição. Isso quer dizer que talvez hoje quem melhor para fazer um filme que um poeta, quem vai pintar um quadro melhor que um músico e quem vai compor uma canção tão linda quanto uma bailarina? Porque aí está se oferecendo um olhar renovado, oxigenado. Mas também tem o outro lado, faço várias atividades, conheço as linguagens, faço televisão há 11 anos, sei escrever um roteiro de televisão, sei dirigir TV e sei as coisas relacionadas a apresentar. Faço teatro, conheço os códigos do meio, da luz, do cenário, do espaço. Então é um híbrido do desejo lancinante, transgressivo. Ao mesmo tempo isso vai te levando também para um compromisso. Mas, a priori, a técnica é secundária para mim. Quando comecei não sabia e não me furtei a fazer porque não sabia. Meu desejo era mais importante.


EE Você veio da poesia?
MM
É engraçado isso. Estava num bar, no auge dos meus 15 anos, já começando minha juventude transviada, com as gatinhas, começando a beber, fumar e tal. Era uma noite especial, porque foi com uma das primeiras moças que paquerei na vida e consegui ficar com ela, coisa de [quem tem] 15 anos. Foi numa festa de um amigo. Escolhi uma moça, a cortejei, ela gostou de mim e fomos para o bar que era perto de casa, depois da festa. E aí apareceu esse cara de sobretudo [o escritor Guilherme Zarvos, que organizava um projeto de poesia para reunir jovens com poetas consagrados], que disse: ‘Você é poeta? Se for, estou realizando um evento, Terças Poéticas, com João Cabral de Melo Neto, Antonio Aires, Ferreira Gullar’. Quando o cara terminou de contar aquele quadro lindo, falei que era e comecei a escrever. Mas, recentemente, me dei conta de que na escola fazia aula de teatro e por dois anos escrevi a peça que a turma inteira fez. E tinha o Aguiar, um livreiro que eu conhecia desde criança, quando minha mãe me levava na livraria. Ele me indicou de Lígia Bojunga Nunes a Kafka.

EE Mas foi a partir do Terças Poéticas que você começou a se desenvolver como artista?
MM
Não. Lá tinha que ir o jovem poeta subir no palco e declamar seus poemas. Depois o João Cabral comentava seus poemas, falava os dele e havia ali um debate, perguntas do público... E eu morria de vergonha de subir no palco. Marquei com ele três terças-feiras seguidas, mas ficava do lado de fora esperando. De propósito, porque estava muito envergonhado. Só que esse evento conseguiu aglutinar uns 20, 30 jovens, de 15 a 25 anos, que escreviam ou estavam fazendo música, e daí surgiu o CEP 20.000, um evento de arte multimídia que acontece há 20 anos no Sérgio Porto, no Rio de Janeiro. No primeiro, já subi, falei meu poema e passei a falar toda semana. Uns dois anos depois comecei a coordenar o evento junto com o Zarvos e o Chacal. Fiquei mais uns quatro anos junto com eles produzindo o evento e foi onde me formei, em termos de tudo, porque todo mês fazia várias apresentações. Eu produzia uma das noites, chamava as pessoas, dirigia o espetáculo, apresentava, montava luz, a disposição do palco, fiz performances de todos os tipos, com música, com dança.

 

Na peça Returgitofagia à direita. À esquerda soltando os bichos em HomeMúsica

 

EE Foi quando pensou no projeto da Trilogia Brasileira?
MM
Nestes seis anos fiz umas mil performances, várias por semana em museus, teatros, universidades, em tudo quanto é lugar. Não se repete, nunca é igual, cada dia é um formato, um dia dez minutos, outro dia 30, então era nesse lugar híbrido que eu ficava. E comecei a fazer televisão na paralela e a escrever a história que era a da Regurgitofagia [monólogo em que ele estava ligado a eletrodos que transformavam as reações da plateia em choques elétricos], a refletir sobre esse conceito. Tinha uma inquietação muito grande, a década de 90 foi muito difícil, do ponto de vista da produção artística.

EE Mudando de assunto, você acha que com esse tanto de corpos expostos, de sexo no mundo, via revistas e internet, mudou muito o jeito que as pessoas estão se relacionando, o jeito que elas estão trepando, se conhecendo?
MM
Eu acho. Está muito melhor, é muito bom trepar pra caralho com um monte de gente.

EE Pode crer, pode crer...
MM
Acho que esse não é o problema. O problema é o seguinte: se as pessoas são superficiais, isso é problema da pessoa. Quando estou solteiro trepo pra caralho com todas as mulheres que se interessam por mim, estou solto, é normal. E eu não sou superficial. Não tem essa de mercado das carnes, as pessoas vão e transam. Acho ótimo que haja espaço também pra isso, mas tem dia que você quer mais, cinema francês, entrelinhas, o não dito. Pô, tem coisa mais linda que você conhecer alguém, trocar poucas palavras e já ir transar? É uma delícia. Erotismo é bom de todo jeito. Muito corpo, muito sexo, muito tudo, isso não é justificativa pra você ser superficial, pra ser careta, fachada, caô, fake. Não vejo transa fake há muito tempo, estou trepando bem [risos]. Tem uma música do Lulu [Santos] que é foda. Diz assim: “Não leva o personagem pra cama...” Não tenho visto isso, eu não transo com pessoas que levam o personagem, não vou pra cama pra fazer performance. Às vezes acontece de ser uma trepada ruim, não combinou, tem a química, os interesses sexuais, pode ficar um pouco pro forma, mas aí bateu na trave, foi errado, não é porque você é fake.
EE Mesmo quando é ruim é bom?
MM É, vira tua amiga ou vira uma história em que você aprendeu coisas. Não tem ordinário, não tem desperdício, só se você desperdiçar.

EE Hoje tem muito corpo nu por aí, na rua, nas revistas, na internet...
MM
Isso é bom.

EE Por que você acha bom?
MM
Porque fico pensando sempre no desejo. Você estava falando da década de 1990, era do pré-pós-modernismo, porque agora é isso, estratificou, principalmente com a internet, então a sensibilidade é o desejo. Esse corpo fake eu acho interessante em algum aspecto, está relacionado à cultura de massa, ao pop.

EE Ao ideal, né?
MM
A um monte de coisa e, principalmente, a essa frase que é linda, que eu já não sei se é do Derrida [Jacques, filósofo francês de origem argelina]: “Nada mais profundo que a pele”. Quer dizer, a superfície é a manifestação da essência, seja a vontade de aparentar alguma coisa e aparentar fake e ser fake. Por exemplo: estes dias me peguei falando o seguinte nome, nem sei de quem se trata, Felipe Simão. Dois dias depois liguei a internet e pá, Felipe Simão é o ex-namorado da Luana Piovani. Cara, eu li mil vezes o nome dele na internet, não sei o que ele faz, não sei quem ele é, mas tenho certeza que o espaço poderia estar sendo melhor ocupado, entendeu? É muito Felipe Simão pra um monte de coisa, que vai desde o Walter Benjamin até questões essenciais do dia-a-dia. Não é que não tenha que ter essa perfumaria, essa coisa da cultura de massa, celebridade, isso tem seu interesse, porque a gente está falando do humano. Entrevista é um pouco pra isso, estou falando aqui, acho que alguém vai ler e dizer, maneiro, penso como esse cara e isso que ele falou eu não sabia, aí abre pro cara pensar o contrário também, pô, não concordo, e você cria sua identidade se opondo. Então tem sua função o Felipe Simão, mas, às vezes, é muito Felipe Simão.

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