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ela e nós

 

INTIMIDADE REVELADA


MODELO, DONA DE BISTRÔ, PRODUTORA DE TV. A PAULISTANA TIÊ JÁ FEZ TUDO ISSO, MAS É COM SUAS MÚSICAS SERENAS, DE TEOR CONFESSIONAL, QUE ELA NOS GARANTE UMA VIAGEM A SEU UNIVERSO INTERIOR. O MELHOR É QUE NÃO DÁ VONTADE DE VOLTAR 

 

POR CARLOS MESSIAS


Todo homem gosta de mulher bonita, simpática e gostosa, mas as que ficam na memória normalmente têm um quê a mais. Olhares provocativos, uma mente inquieta, palavras que fluem com naturalidade e exuberância na intimidade. Todas essas são características marcantes que tiram um cara do seu lugar-comum. E ao escutar Sweet Jardim, álbum de estreia da cantora, violonista e compositora paulistana Tiê, 29 anos, você vai ter a impressão de que passou meia hora na companhia de alguém assim. “Foi um disco em que abri minha intimidade”, ela revela. “É bom para ouvir lavando a louça ou quando você está pensando na vida.”
O disco de Tiê deixa o ouvinte com a impressão de conhecê-la um pouco melhor. “Todas as minhas letras são autobiográficas, costumo compor como se estivesse escrevendo uma carta para alguém que conheço”, reconhece. E, pela sua trajetória pessoal, ela realmente tem assunto para contar. Neta da atriz Vida Alves – protagonista da primeira cena de beijo da televisão brasileira, na novela Sua Vida Me Pertence, da TV Tupi –, Tiê Biral herdou da família a veia artística e desde muito cedo conviveu com discos de Clube da Esquina, Beatles e Toquinho. “Aprendi a cantar ouvindo João Gilberto e Chet Baker”, diz. “Adoro o tom sussurrado das canções deles.”
Ainda antes de se envolver com música, Tiê já trabalhava como modelo da agência Ford e a experiência lhe rendeu uma estada no Japão. Nesse ínterim, teve sua primeira experiência com a música, quando, junto a uma banda do colégio, venceu o disputado Prêmio Fico, do Colégio Objetivo, em São Paulo. Em 2000, trancou a faculdade de Relações Públicas para ir estudar canto em Nova York, onde também trabalhou como produtora do Brazil Fest, organizado por Nelson Motta. Um ano e meio depois, voltou para concluir os estudos e produziu vídeos publicitários para a O2 Filmes, de Fernando Meirelles. Na sequência abriu um brechó no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da capital paulista, seu habitat até hoje, que com o tempo passou a servir refeições, adquirindo ares de bistrô e promovendo uma interação com a clientela. Foi assim que ela conheceu duas pessoas que contribuiriam com sua carreira musical: o tecladista Dudu Tsuda (das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro) e ninguém mais que Toquinho, seu ídolo de infância.
Foi cantora da banda deste último e, ao lado de Tsuda, participou do projeto Cabaret Duar Tsu & Tiê Bireaux, com o qual tocava em clubes paulistanos madrugada afora. “Era como ter dupla personalidade. A banda de Toquinho ajudou com que eu me profissionalizasse e o Cabaret me inseriu na cena underground de São Paulo.”  
Terminada essa escola, era hora de colocar o aprendizado em prática e, no ano passado, Tiê sentou para compor e gravar Sweet Jardim. Angariou um time respeitável de colaboradores, como o produtor Plínio Profeta, a cantora Naná Rizzini, Tatá Aeroplano (do Cérebro Eletrônico), a estilista Rita Weiner (responsável pelo figurino e pela concepção visual do álbum), além do próprio Toquinho. O resultado são dez faixas palatáveis e intimistas no formato voz/violão. Mas não vá cometer a gafe de enquadrá-la dentro da onda neofolk – como Vanguart e Mallu Magalhães – que assola o cenário independente nacional. O trabalho de Tiê é muito mais consistente, contando com arranjos sutis e delicadamente sujos, rimas certeiras e narrativas longas – à la Leonard Cohen e Joni Mitchel –, puxando mais para a MPB. Mais do que isso, vale pela personalidade da sua criadora que está impregnada em cada estrofe do álbum. Você escuta como se estivesse em uma boa conversa de travesseiro.

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