O cabelo é negro, sedoso e liso, num corte chanel que destaca o pescoço bem-feito e as costas cobertas por uma pele de pêssego. Os olhos são de uma doçura incrível, e os lábios, carnudos e convidativos. Os seios não são daquela dureza siliconada, mas de uma firmeza feita de carne nova e macia. O corpo é esguio sem ser ossudo, elegante sem ser frio. Mesmo quando levanta da cama para abrir a geladeira ou ir ao banheiro, parece estar numa dança sensual. Cheia de classe, tem um quê de sem-vergonha e uma tendência sadomasoquista. Parece frágil. Dá vontade de protegê- la. Mas, ao olhá-la de novo, a fragilidade desaparece, e a vontade já é outra, bem menos inocente. Em resumo, ela é um tesão de mulher, capaz de levar os homens a profundos sonhos eróticos.
Claro que uma mulher fantástica assim não existe. Quer dizer, só existe em papel desenhado. O nome dela é Valentina, a mais famosa e provocante personagem dos quadrinhos eróticos de todos os tempos. Ela foi inventada pelo desenhista italiano Guido Crepax (1933-2003), que se inspirou na atriz do cinema mudo Louise Brooks, de quem era fã.
No começo, Valentina não foi a personagem principal. Ela era apenas uma fotógrafa com curvas estonteantes que namorava o herói Philip Rembrant, um misto de crítico de arte com investigador. Isso foi em 1965. Mas Valentina começou a se destacar. Afinal, ela resumia como ninguém o sonho de todos os homens: uma combinação de doçura, beleza e sensualidade numa mulher nascida especialmente para as delícias do sexo. Portanto, ninguém estranhou quando ela virou a protagonista, desbancando o insosso ses sensuais e seu requinte sadomasoquista. Sonhar com essa musa de papel já fez a vida de muita gente ficar bem mais interessante. No mais, quem ainda não conhece Valentina não pode dizer que sabe o que é erotismo de primeira. Se for esse o seu caso, corra já para a livraria mais próxima e veja o que andou perdendo - e seja bem-vindo ao clube. policial intelectual e fazendo de Crepax um artista famoso.
Foi um sucesso merecido. Crepax, arquiteto de formação, desenhava há tempos para campanhas de publicidade e fazia capas de livros, discos e periódicos a dar com o pau - só para a revista científica Tempo Médico, por exemplo, concebeu mais de 200 capas. Nas horas vagas, para relaxar, se dedicava a litografias, serigrafias e aquarelas. Era artista incansável e para lá de versátil.
Mas nenhuma de suas criações se compara a Valentina, sequer suas outras musas, como Belinda, Anita e Bianca - todas gostosas, mas, ainda assim, apenas traços no papel. Com Valentina é diferente. Ela convence o leitor num nível raro em se tratando de quadrinhos. A mistura de realismo e sonho faz dela um caso especial na história da cultura erótica. E isso é opinião mais que geral. Tanto que Valentina foi e é publicada em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, transformando homens de vários credos e nacionalidades em grandes babões, todos atordoados por suas poses sensuais e seu requinte sadomasoquista.
Sonhar com essa musa de papel já fez a vida de muita gente ficar bem mais interessante. No mais, quem ainda não conhece Valentina não pode dizer que sabe o que é erotismo de primeira. Se for esse o seu caso, corra já para a livraria mais próxima e veja o que andou perdendo - e seja bem-vindo ao clube.