
Cama de pedras. Correntes e amarras de couro. Troncos para castigo. Tortura
genital. Limpeza do chão na posição de quatro sendo chicoteado. Reclusão
em jaulas. Domínio psicológico e físico. O mundo do Bondage Sadomasoquism
(sadomasoquismo com amarras), ou BDSM, como é chamado pelos iniciados, está
há aproximadamente 15 anos no Brasil. Mais que prática dispersa e relegada
a momentos esporádicos, seus seguidores a adotam como verdadeiro estilo
de vida, respeitando rígidos rituais de submissão. Um belo exemplo é a Cerimônia
do Encoleiramento, na qual a "Rainha"encoleira seu "escravo"na presença
de outros membros do clube. Não raro, esse inusitado casamento arranca
lágrimas dos participantes.
Para conhecer mais de perto esse universo emocional e psicológico tão
distante das práticas sexuais comuns, a reportagem da Ele Ela
visitou o maior e mais conceituado espaço de BDSM da América Latina, o
Clube Dominna, localizado no bairro da Aclimação, em São Paulo. O clube
tem 200 sócios, e suas festas atraem entre 250 e 400 pessoas, entre 30
e 70 anos de idade, incluindo homens e mulheres de outros estados e países.
Ali, o sadomasoquismo e outros fetiches são regidos pela supremacia feminina.

CULTURA DA DOR
Quem nos recebeu foi Bela, de 37 anos, uma das donas da casa. Simpática, atenciosa
e com um belo sorriso, levou-nos até sua sala, onde guarda, muito bem
organizados, DVDs de Madonna, Elton John e da cantora country Shania Twain, e
conta que é apaixonada por música celta - o estilo que mais embala as
práticas de BDSM, SM (apenas o sadomasoquismo, sem o uso de bondage, ou
amarras) e podolatria. "A música celta deixa a pessoa concentrada, e a
ajuda a se entregar mais do que faria normalmente", relata. A arte ao seu
redor explica o bom humor e a simpatia de Bela. Além da música, ela também
possui alguns livros de fotografia, como de Klaus Mitteldorf e Otto Weisser, diversos
vídeos da prática de BDSM - alguns com títulos muito sugestivos, como Finally
Punished (Finalmente Punido) -, revistas com matérias sobre sadomasoquismo
e uma imensa gama de livros sobre os mais variados fetiches, inclusive
com imagens de práticas do século 17.
A própria história de Bela é um indicativo de como as pessoas podem se
descobrir. Ex-professora e diretora de colégio de freiras, onde também
estudou durante toda a infância e adolescência, Bela conta que, quando
os primeiros fetiches começaram a passar por sua cabeça, ela se sentiu
muito diferente. Certa vez, na casa de um primo, encontrou um gibi que
ilustrava diversos objetos de tortura que chamaram sua atenção. O filme
A Princesa e o Cavaleiro( de Osamu Tezuka e Masaki Tsuji, 1967) foi outro
material que instigou sua mente fetichista. Recordase também de Rambo
II:"Rambo amarrado, sendo afogado, ficou na minha cabeça por muito tempo".
Anos mais tarde, ela começou a freqüentar um bar em São Paulo, onde outros
praticantes do BDSM se reuniam para conversar sobre suas fantasias e marcar
encontros para a prática de seus fetiches. Na primeira vez que praticou
SM, Bela conta que chegou à play party (como são chamados os encontros)
às 20 horas e só saiu às 7 da manhã. Com o passar do tempo, entre várias
outras coisas, Bela descobriu que um ataque de cócegas é capaz de provocar
tesão, e que é bissexual. "Colocaria uma coleira em Shania Twain, ou Madonna",
fantasia. Mas "não sou muito chegada a bondage", ressalta.
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