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A LEI DO CHICOTE
NO CORAÇÃO DE SÃO PAULO, HÁ UMA VERDADEIRA DISNEYLÂNDIA SADOMASOQUISTA, ONDE HOMENS SE ENTREGAM AOS RITUAIS DE SUBMISSÃO IMPOSTOS POR BELAS MULHERES. PARA ELES, É ESTILO DE VIDA. PREPARE-SE PARA ENTRAR NO MAIOR CLUBE SADOMASOQUISTA DA AMÉRICA LATINA

POR CRISTIANA REBOUÇAS
FOTOS ZÉ PEDRO


Cama de pedras. Correntes e amarras de couro. Troncos para castigo. Tortura genital. Limpeza do chão na posição de quatro sendo chicoteado. Reclusão em jaulas. Domínio psicológico e físico. O mundo do Bondage Sadomasoquism (sadomasoquismo com amarras), ou BDSM, como é chamado pelos iniciados, está há aproximadamente 15 anos no Brasil. Mais que prática dispersa e relegada a momentos esporádicos, seus seguidores a adotam como verdadeiro estilo de vida, respeitando rígidos rituais de submissão. Um belo exemplo é a Cerimônia do Encoleiramento, na qual a "Rainha"encoleira seu "escravo"na presença de outros membros do clube. Não raro, esse inusitado casamento arranca lágrimas dos participantes.

Para conhecer mais de perto esse universo emocional e psicológico tão distante das práticas sexuais comuns, a reportagem da Ele Ela visitou o maior e mais conceituado espaço de BDSM da América Latina, o Clube Dominna, localizado no bairro da Aclimação, em São Paulo. O clube tem 200 sócios, e suas festas atraem entre 250 e 400 pessoas, entre 30 e 70 anos de idade, incluindo homens e mulheres de outros estados e países. Ali, o sadomasoquismo e outros fetiches são regidos pela supremacia feminina.

CULTURA DA DOR

Quem nos recebeu foi Bela, de 37 anos, uma das donas da casa. Simpática, atenciosa e com um belo sorriso, levou-nos até sua sala, onde guarda, muito bem organizados, DVDs de Madonna, Elton John e da cantora country Shania Twain, e conta que é apaixonada por música celta - o estilo que mais embala as práticas de BDSM, SM (apenas o sadomasoquismo, sem o uso de bondage, ou amarras) e podolatria. "A música celta deixa a pessoa concentrada, e a ajuda a se entregar mais do que faria normalmente", relata. A arte ao seu redor explica o bom humor e a simpatia de Bela. Além da música, ela também possui alguns livros de fotografia, como de Klaus Mitteldorf e Otto Weisser, diversos vídeos da prática de BDSM - alguns com títulos muito sugestivos, como Finally Punished (Finalmente Punido) -, revistas com matérias sobre sadomasoquismo e uma imensa gama de livros sobre os mais variados fetiches, inclusive com imagens de práticas do século 17.

A própria história de Bela é um indicativo de como as pessoas podem se descobrir. Ex-professora e diretora de colégio de freiras, onde também estudou durante toda a infância e adolescência, Bela conta que, quando os primeiros fetiches começaram a passar por sua cabeça, ela se sentiu muito diferente. Certa vez, na casa de um primo, encontrou um gibi que ilustrava diversos objetos de tortura que chamaram sua atenção. O filme A Princesa e o Cavaleiro( de Osamu Tezuka e Masaki Tsuji, 1967) foi outro material que instigou sua mente fetichista. Recordase também de Rambo II:"Rambo amarrado, sendo afogado, ficou na minha cabeça por muito tempo".

Anos mais tarde, ela começou a freqüentar um bar em São Paulo, onde outros praticantes do BDSM se reuniam para conversar sobre suas fantasias e marcar encontros para a prática de seus fetiches. Na primeira vez que praticou SM, Bela conta que chegou à play party (como são chamados os encontros) às 20 horas e só saiu às 7 da manhã. Com o passar do tempo, entre várias outras coisas, Bela descobriu que um ataque de cócegas é capaz de provocar tesão, e que é bissexual. "Colocaria uma coleira em Shania Twain, ou Madonna", fantasia. Mas "não sou muito chegada a bondage", ressalta.

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