A palavra sodomia não é muito agradável aos ouvidos, lembrando coisas proibidas e "antinaturais". Por isso, em 1972, quando o diretor Bernardo Bertolucci lançou seu filme O Último Tango em Paris, muitos estremeceram de horror moralista ao saber da cena na qual Marlon Brando fazia sexo anal com a bela e doce Maria Schneider. Imediatamente taxado de "pornográfico", o filme foi proibido em algumas partes do mundo, e inúmeros jornais e revistas polemizaram sobre a "validade" e o "conteúdo pornográfico"de tal obra cinematográfica.
Por aqui, os brasileiros só puderam assisti-lo em 1979. O filme é sobre um viúvo de 45 anos, atormentado pelo suicídio da mulher e desiludido com as possibilidades do futuro, e uma moça no auge de sua vida, mas em dúvida se casa ou não com um jovem cineasta. Os dois se encontram por acaso em um apartamento vazio que está para alugar. Ele rapidamente dita as regras do jogo amoroso que se seguirá: ninguém dirá seus nomes, não falarão de suas vidas pessoais e não deixarão que nenhum romantismo atrapalhe. Apenas o sexo prevalecerá.
É nesse contexto de forte energia sexual que acontece a famosa cena: o personagem de Marlon Brando está sentado no chão do apartamento ao lado de sua jovem amante. Sem aviso, puxa as pernas da moça, vira-a de bruços, abaixa suas calças, unta seu ânus com manteiga e a penetra violentamente. Ela chora e sente dor, ao mesmo tempo em que ele sussurra em seu ouvido: "Vou falar-lhe de segredos de famíla, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer:sagrada família, teto de bons cidadãos. . . ". É uma cena fortíssima, não tanto pelo sexo anal, mas pelo modo como a jovem vai perdendo sua inocência nessa relação brutal, embora de certo modo consentida, já que na cena seguinte eles riem descontraidamente.
O filme de Bertolucci não é erótico ou pornográfico, mas sim uma obra existencialista e questionadora de inúmeros valores sagrados para a maioria das pessoas, e de como o sexo pode tomar conta de corações e mentes. E nada melhor para questionar os valores de uma sociedade do que insistir em comportamentos sexuais que ela não aprova. A força psicológica da relação anal, no filme, está nisso. Há que se admirar a extrema coragem de Marlon Brando em aceitar o papel. Ele já estava com 48 anos, e era um monstro sagrado do cinema, no auge da fama e de sua capacidade interpretativa. Brando se entregou de corpo e alma ao papel, e fez uma de suas interpretações mais difíceis, ao aliar experiência de vida a experiência de interpretação.
E se foi difícil para um ator experimentado como ele mergulhar na química de sexo e fortes emoções do diretor Bertolucci, o que se dirá então da jovem atriz Maria Schneider, obrigada a encarnar uma personagem que desenvolve uma relação puramente sexual com alguém que a domina emocional e psicologicamente? Ela chegou a declarar a imprensa que muitos dos problemas que enfrentou mais tarde, como drogas e excesso de gordura, se deveram à brutal perda de inocência ao fazer esse trabalho.
Depois desse filme - disponível em DVD pela Warner/Fox - Bertolucci fez outras jóias do cinema, tais como O Último Imperadore Os Sonhadores. Ambos são tecnicamente superiores. No entanto, em termos de dramaticidade, de mergulho na alma humana e de exposição de um sexo realista, O Último Tango em Paris é insuperável.