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| Ensaio da Ketherine Grahoski |
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01 |
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Uma das vantagens que o Brasil possui, em relação à Europa, é que nosso
outubro é boca de verão enquanto lá é boca de inverno. Mas e daí? Daí
que aqui, a cada dia que passa, o sol se põe mais tarde e o calor se prolonga
mais. Com os dias cada vez mais quentes, o sol de primavera é sempre um
convite para os encontros de fim de tarde, que continuam pela noite adentro.
Sabe o sol de primavera? É aquele amarelo ouro, cor de cerveja, sem a
dominância vermelha do outono.
Cerveja é para ser comemorada, inicialmente e de preferência em grupo
- é muito mais divertido se temos dois grupos, um de amigos e outro de
amigas. Sua companhia depende de você. O importante é que o clima seja
de festa, de exuberância. É por isso que propaganda de cerveja tem que
ter mulher gostosa, com pouca roupa. Vamos deixar a elegância formal para
os jantares regados a vinho, se bem que muitas loiras são igualmente requintadas.
Aqui é o reino da informalidade, das amizades espontâneas e sinceras,
da diversão leve e, às vezes, fugaz.
Parti para Blumenau pleno deste sentimento de festa. Minha missão, desta
vez, era traduzir todo o espírito da Oktoberfest, o Festival da
Cerveja e da diversão na capital nacional da imigração alemã.
Como sempre, segui sozinho, desta vez dirigindo meu próprio carro. Gosto
das estradas interioranas do sul do Brasil, sem pressa. E o Vale do Itajaí,
com a cultura típica da imigração alemã, é todo especial. É uma região
economicamente bem resolvida, onde nunca se falou em reforma agrária pelo
simples fato de que nunca precisou. Com a tradição alemã das pequenas
propriedades agrícolas de exploração familiar, o Vale, que cresceu mais
tarde também para as indústrias têxteis, de confecções e cristais - outra
tradição germânica - é um exemplo raro no Brasil. Aliás, é um outro Brasil.
Com a renda melhor distribuída do que no restante do País, o povo da região
tem sempre aquele jeitão de gente bem tratada, de muita saúde, o que traz
necessariamente uma beleza indisfarçável.
| "Pedi
logo um shnapps de zimbro para rebater o chopp cremoso que desceu
redondo como tudo tem que ser nessas horas." |
Fiquei em uma pousada simpática, um casarão com estrutura em enchamel,
na parte alta da cidade. Dos meus aposentos, via o rio correndo lentamente
enquanto as ruas se enchiam de turistas. Muitos vinham ali de perto, do
mesmo Vale do Itajaí, Brusque, Gaspar, caras rosadas, cheias de sorrisos,
seguiam para o recinto onde tudo era festa. Fim de tarde. Como não sou
do tipo que se interessa por clubes de caça, ou de tiro, segui pela rua
(...) à espreita de algo mais sutil do que a arquitetura e a gastronomia
tradicional, que se escancaram aos nossos olhos e bocas.
Meu
interesse maior não era exatamente enfrentar a multidão que se juntava
no pavilhão do Festival. Esta seria a opção mais óbvia, portanto não era
para mim. Preferi ficar pelo centro, observando como se divertia o batalhão
dos que trabalhavam para o sucesso da festa.
Ensaiei alguns cliques, sem chegar a disparar. Cenas de bares, casais
de namorados, vitrines, famílias caminhando pelas ruas. Entrei em uma
choperia para degustar os frutos da terra. Pedi logo um shnapps de zimbro
para rebater o chopp cremoso que desceu redondo como tudo tem que ser
nessas horas. Mirei novamente pelo visor ainda com as ondas do chopp deslizando
por minha garganta. Num zoom de close fechado, brinquei com os círculos
dos tampos das mesas ainda semivazias e os globos dos lustres que pendiam
sobre o balcão. Passei da espuma branca que vertiam pelas bordas das tulipas
às curvas da estampa florida do vestido da garota sentada na mesa de trás.
Foi quando ela se voltou para mim. Ainda brincando com a câmera vi a linha
das flores desenvolvendo para seus seios, cheios, enquanto, em seu movimento,
o pequeno botão do vestido se desprende e liberta sua opulência.
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