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A sua revista Ele Ela presta um tributo nesta edição ao jornalista, cronista, humorista, radialista e muito mais, Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Dizem alguns dos seus estudiosos que as suas melhores crônicas apresentam uma situação e depois desfazem o sentido original, isto é, a partir de pistas falsas, a narrativa é conduzida visando a um final que não acontece, surpreendendo o leitor.

Por Vicente de Oliveira Luís

E era isso que se esperava do autor do: Festival de Besteiras que assola o País, o FEBEAPÁ, que persiste em ser atual. E, é claro, do responsável pela lista das "Mulheres Mais Bem Despidas do Brasil" que ficaram conhecidas com "As Certinhas do Lalau", A partir de uma das suas frases: "Mais assanhado do que bode velho no cercado das cabritas" foi escrita a história que você vai ler agora.

O doutor Juvenal Guedes prezava, acima de tudo, a sua tranqüilidade. Viúvo, três filhas casadas e genros que ele tinha em pouca ou nenhuma conta. Homem de posses e de todo o prestígio delas decorrente. O doutor tinha tudo para continuar o mesmo seguir sossegado dos dias, não fosse uma febre, um clamor do corpo que ele pensava havia muito subjugado, o mais antigo desejo do homem: sexo.

Mas o doutor Juvenal não podia simplesmente sair por aí e a arrumar o primeiro rabo-de-saia que se oferecesse. As filhas jamais permitiriam que ele fizesse como os outros fazendeiros da região, que ostentavam o título de doutor como ele, mas continuavam a se portar como os antigos coronéis. Eles simplesmente traziam alguma caboclinha para casa, em troca de alguns quilos de mantimentos para as famílias que ficavam felizes e aliviadas por ter uma boca a menos para alimentar.

Nem nos puteiros e cabarés da região e adjacências, o doutor Juvenal poderia dar as caras sem que isso fosse notícia e acabasse chegando aos ouvidos das suas filhas que fariam tal alarde e balbúrdia que acabariam com o sossego que era tão caro para ele.

Dada a constância do desejo carnal que o fazia readquirir reflexos e atitudes de tempos idos, o doutor Juvenal resolveu fazer uma viagem para o Rio de Janeiro, não precisou nem era seu costume dar satisfações. As filhas cuidaram da passagem de ônibus, de avião nem pensar, a reserva num hotel, guias da cidade. Mas o doutor voltava a um lugar conhecido num dos momentos mais felizes da sua vida: a sua Lua de Mel.

O doutor Guedes sabia que o Rio tinha mudado, até a sua pequena cidade o havia surpreendido com as mudanças, ainda mais uma cidade que ele havia conhecido há 47 anos, quando ainda era Capital Federal, e hoje se tornara o principal pólo turístico do País.

Chegou à rodoviária da Cidade Maravilhosa pela manhã, seguiu para o hotel reservado pelas filhas e depois saiu para um passeio na orla. O doutor Juvenal Guedes ficou impressionado com a exuberância e a ausência de pudor das mulheres nas praias. Os biquínis praticamente revelavam mais do que escondiam a nudez daqueles corpos saudáveis e perfeitos.

Entusiasmado, quase perplexo, ele voltou para o hotel e descansou até a noite. Um pouco de excitação traía a sua índole amante do resguardo e do recolhimento, mas a ocasião permitia. Vestiu-se com apuro, pegou o canivete pica-fumo, separou o dinheiro e foi de táxi para Copacabana.

Percorrendo as ruas de Copacabana de táxi, ele percebeu que as mudanças favoreciam ao seu propósito. Muitas mulheres se ofereciam pelas esquinas, e ele teve a certeza de que a sua viagem não tinha sido em vão. Em seguida, procurou o hotel que ele havia se hospedado com a esposa anos atrás. E não se surpreendeu ao ver que o hotel agora era uma casa noturna. Entrou devagar, sondou o ambiente, procurando sinais conhecidos. O mesmo salão amplo e oval que servia de restaurante, agora servia para outros apetites, algumas mesas, o balcão do bar na lateral esquerda, e um palco no fundo, onde acontecia um strip-tease, o tapete vermelho puído e sujo parecia o mesmo. O doutor Juvenal procurou uma mesa mais discreta e continuou sondando o ambiente à procura da satisfação do seu desejo.

Aquela atmosfera à meia luz e esfumaçada, com a presença de tantas mulheres ao redor, quase seminuas, não deixou o doutor Juvenal Guedes à vontade. O tesão se foi, e instalou-se o desconforto em alguém tão habituado ao reduzido convívio com estranhos.

Então o doutor viu uma mulher encostada no balcão que parecia sentir tanto desconforto quanto ele, cabelos louros e longos, alta, bonita, com um vestido curto e vermelho. Aí todos os seus incômodos cederam ao desejo que o havia feito buscar agitação e alvoroço que ele tão pouco prezava. E, desta vez, o tesão que o doutor sentiu não foi motivado pela fantasia ou lembranças, mas pela possibilidade real de satisfazer desejos sexuais. Bastou um olhar e a mulher, lânguida e sensual, veio ao encontro do doutor, que a recebeu gentil e ligeiramente encabulado.

E antes que ele ficasse ainda mais embaraçado, tentando puxar conversa, ela mostrou o traquejo da sua profissão milenar: disse que se chamava Michelle, perguntou o nome dele, de onde ele era e se ele estava a fim de um programa?

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