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O cinema brasileiro faz sucesso até no Brasil
Agora está fácil gostar do cinema nacional. Mas o caminho percorrido foi muito longo para que a gente pudesse rir e chorar com nossas próprias histórias

Por Milton Angeli

Quem nunca torceu o nariz para o título "filme nacional" que atire a primeira pipoca.

Principalmente para o público mais maduro, pra lá dos 40, esse era o costume. Uma época negra do cinema tupiniquim, no qual o som era péssimo, muitas vezes por culpa das próprias salas de exibição, a fotografia capengava e os atores e atrizes disparavam frases como se estivessem sendo apresentados ao roteiro naquele momento.

Além do dinheiro curto, a falta de uma indústria do cinema deixava a honra do Brasil na mão de alguns poucos aventureiros que insistiam contra todos estes obstáculos, sem falar nos anos da ditadura, que tolhiam toda a liberdade de expressão e criação.

Nessa época, entre 1964 e 1980, o Brasil chegou ao recorde negativo de lançar somente um longa metragem por ano, quando o pessoal da pornochanchada perdeu de lavada para os filmes de sexo explícito que invadiram nossas telas e nossos lares, com a maior competência do mundo, rasgando qualquer roteiro para nos trazer tomadas cada vez mais ginecológicas das "talentosas atrizes". É, temos que concordar que em matéria de sacanagem, os gringos estão muito à nossa frente. Mas, esta é outra história.

Com tudo isso, como é que o Brasil conseguiu melhorar tanto a sua produção, inclusive faturando alguns prêmios em festivais importantes aqui e ali?

A televisão e a publicidade dão uma mão ao nosso cinema.

Sem tirar o mérito dos artistas, Holywood sempre dominou o cinema mundial porque tem muito dinheiro, inclusive com forte apoio do governo americano, e tem uma grande produção em escala, gerando milhares de empregos. Desta quantidade é que vem a qualidade. Para cada grande filme que roda o mundo, ganhando o aplauso dos críticos e do público, vários filmes menores são feitos, com atores mais ou menos, produções classe B e roteiros meia-boca. São títulos destinados à televisão, com suas dezenas de canais abertos e centenas de canais fechados, que têm que consumir horas e horas de película, sejam boas ou não.

Um movimento semelhante aconteceu no Brasil nos últimos 30 anos. Com o sucesso cada vez maior de nossas novelas, várias gerações de atrizes, atores, diretores e técnicos puderam ganhar o pão de cada dia exercitando seus talentos na telinha. Isto criou um time de profissionais de qualidade e disponíveis para os longas, que o País nunca tinha tido antes. A publicidade também ajudou. Qualquer um que tenha visto TV em outros países percebe que a nossa propaganda é bem cuidada, tem um padrão altíssimo de qualidade que está sempre colocando o Brasil entre os 3 ou 4 primeiros do mundo. Assim, o cinema acabou ganhando uma força das irmãs ricas: a TV e a publicidade.

Começamos pagando uma promessa pra Iansã, ou melhor, Santa Bárbara. E traçando a presidente do júri.

fotos: Divulgação / Fototeca fotos: Divulgação / Fototeca
Um filme brasileiro, feito para brasileiros.

Já que estamos falando em prêmios, nossa cena começa no ano de 1962, com "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, que levou nada menos que a Palma de Ouro em Cannes, o maior Festival de Cinema do mundo, se considerarmos o Oscar uma festa doméstica do Tio Sam. Claro que existia vida inteligente no cinema nacional antes do Pagador, mas ele é o símbolo de uma época e nunca tínhamos tido tanto reconhecimento até aquele momento.

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